quinta-feira, 10 de maio de 2018

Mapa de Porto Alegre de 1833


      Uma das primeiras representações cartográficas de Porto Alegre foi desenhada por um italiano no ano de 1833. Trata-se de uma aquarela de 25 por 30 centímetros, pintada pelo revolucionário carbonário Livio Zambeccari. O Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul localizou esta representação de nossa cidade em 2005. Ela estava na Itália, na região da Bolonha, local de origem de Zambeccari. 
       Apesar de não ser uma representação muito exata de Porto Alegre da época (através do cruzamento com outras fontes, historiadores observam a existência de algumas falhas na representação), o mapa de Zambeccari está cercado por histórias interessantes. A começar pela trajetória de seu próprio autor: com uma história semelhante a de Giuseppe Garibaldi, Livio Zambeccari veio para Porto Alegre seguindo suas convicções revolucionárias. Nascido em 1802, filho de um conde, já aos 19 anos lutava ao lado dos carbonários, grupo que defendia a unificação italiana. Chegou em Porto Alegre em 1831 e tornou-se amigo e secretário de Bento Gonçalves.  Em 1836 foi preso junto com Bento Gonçalves e transferido para o Rio de Janeiro. Após a prisão, foi transferido para Itália não mais voltando ao Rio Grande do Sul. Além do mapa de Porto Alegre, Zambeccari também produziu um livro sobre a flora gaúcha e seu uso na alimentação e medicina. 
       No mapa de Zambeccari estão representadas apenas as ruas por onde ele circulava. Morador da esquina das atuais General Câmara e Andrade Neves, o autor assinalou nas legendas os locais de moradia de seus amigos revolucionários, o que é uma grande curiosidade encontrada no material. Abaixo, publicamos uma imagem do mapa de 1833 para que nossos amigos possam observar o trabalho do revolucionário italiano. 



    

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Deixe o seu Carro em Casa

      Entre os anos de 1999 e 2005 a Cia. Carris produziu um jornalzinho voltado para o seu público externo. O informativo "Coletivo" era distribuído nos ônibus da empresa e tinha uma tiragem mensal. Tratava-se de uma publicação "de bolso", no formato de um bloco de notas pequeno. Geralmente o material era composto por poucas páginas, o exemplar do qual iremos falar, por exemplo, tinha apenas oito. 
     Mesmo sendo um jornalzinho pequeno, o "Coletivo" trazia matérias pertinentes e interessantes! No primeiro exemplar de 2003, por exemplo, há um texto com informações sobre as linhas da empresa que serviam ao Fórum Social Mundial, uma matéria sobre os três anos da linha T9 e uma coluna intitulada "Nossa Gente", falando sobre o cotidiano de uma dupla de motorista e cobrador. Merece destaque, entretanto, um pequeno texto intitulado: "Deixe seu carro em casa". Como é possível deduzir a partir do título, o tema da matéria é a ideia de substituição do uso do automóvel pelo transporte coletivo nas grandes cidades.
     É dada a informação de que iria ocorrer uma "Semana Nacional do Trânsito", com a participação da Prefeitura de Porto Alegre e da Cia. Carris. Também é informado que durante um dia ocorreria o fechamento de um trecho da Avenida João Pessoa. Neste espaço só seria permitida a circulação de veículos de transporte público e a realização de atividades esportivas e culturais.  O Museu Itinerante Memória Carris iria participar desta ação abrindo suas portas para visitações.
     Pesquisando um pouco sobre o tema na internet, descobrimos que há uma campanha mundial intitulada "Na cidade sem meu carro" que tem como um dos seus slogans a frase "Deixe seu Carro em Casa". Pelo o que podemos deduzir, há uma relação entre as atividades propostas pela Prefeitura em 2003 e a campanha citada. O programa "Na cidade sem meu carro" tem sua origem na França e tem como uma das suas premissas a ideia do desenvolvimento de políticas públicas que alinhem questões ambientais e de qualidade de vida. Neste sentido, uma das propostas é tratar a mobilidade urbana de forma sustentável, priorizando o deslocamento de pessoas e não de veículos. Na França, por exemplo, existe um programa federal em que o governo dispõe de recursos para os municípios que implementarem políticas de restrições ao uso dos automóveis e priorizem os modos coletivos e não motorizados de deslocamento (bicicletas, por exemplo).
     Por trás disso, esta a ideia de que ao priorizar o transporte público, se prioriza a qualidade de vida nas grandes cidades. No sentido de que ocorrerá a diminuição dos níveis de poluição, a diminuição do trânsito (menos veículos circulando) e, consequentemente, o tempo gasto pela pessoas em sua locomoção. Para isto funcionar, entretanto, é necessário que se ofereça opções realmente eficientes e de boa qualidade de transporte coletivo (bons ônibus, trens, metrôs, etc). Desta forma, valerá a pena para o cidadão a opção pelo transporte público.
        Imagina-se, que no futuro, esta ideia de priorização do transporte coletivo em relação ao individual  irá crescer e se desenvolver. E você leitor, o que pensa sobre esta questão?




quinta-feira, 5 de abril de 2018

O Motorneiro e a sua Farda

    Em nosso Museu Itinerante Memória Carris temos um manequim vestido com a farda de um antigo motorneiro. Sempre que somos visitados, contamos que este uniforme é uma vestimenta original, que foi realmente utilizada por um antigo colega da Carris na execução de suas atividades como motorneiro. Nosso objetivo com esta explicação é demonstrar ao pessoal que nos visita que este uniforme é um objeto histórico, que nos ajuda a pensar sobre o cotidiano de trabalho das antigas tripulações dos bondes elétricos de Porto Alegre. 
     O fato do uniforme ter pertencido a um motorneiro real e de ter realmente circulado nos bondes elétricos de uma cidade no passado desperta muitas imaginações! Muitas vezes recebemos perguntas sobre o antigo dono da vestimenta: seu nome, se trabalhou muito tempo na Carris, quais as linhas em que ele trabalhou.... Principalmente as crianças demonstram bastante curiosidade. 
    Esta semana, realizando uma pesquisa em nosso acervo de jornais "Volante" (jornal de circulação interna da Carris, entregue aos funcionários), encontramos informações sobre o antigo motorneiro dono da farda em questão. Na edição do jornal de agosto de 2001 está escrito: 
"(...) - Motorneiro doa a sua farda para o Museu da Carris - O motorneiro Cândido de Almeida doou sua antiga farda de motorneiro, guardada há mais de trinta anos, para o Museu da Carris. Em ótimas condições de conservação, o uniforme é mais uma peça valiosa para a memória da empresa. Cândido Almeida esteve presente, em julho, no Primeiro Encontro dos Motorneiros da Carris (...)". 
    Se a farda tinha mais de trinta anos em 2001, hoje ela tem quase cinquenta anos. Mesmo estando exposta por dezessete anos em nosso ônibus/museu as suas condições de conservação continuam excelentes, o que demonstra a qualidade do tecido utilizado em sua fabricação. 
    Em abril de 2013 entrevistamos uma antigo motorneiro da Carris para o nosso Banco de História Oral. O Sr. Darci Ibsen Fagundes da Rosa trabalhou como Motorneiro na empresa entre 1952 e 1967. Sobre o uniforme o Sr. Darci lembra: 

"(...) ENTREVISTADOR - A gente nota olhando as fotos antigas, que os uniformes dos funcionários eram muito alinhados. Tinha algum tipo de cobrança da direção da empresa, dos superiores, em relação aos uniformes, de tu estares sempre alinhadinho? 
SR. DARCI - O uniforme, tem uma camisa aqui que eu usava naquela época e era do uniforme [Sr. Darci mostra uma camisa que ele levou para a entrevista para conhecermos].
ENTREVISTADOR - Deixa eu pegar a camisa, ela é bem grossinha, né? O senhor não sofria com o calor? Inverno e verão era sempre o mesmo uniforme?
SR. DARCI - Casaco, camisa e boné. Tu tinhas que estar sempre com a barba bem feitinha e bem arrumado. Tinha funcionário que ia todo engomado. Até tinha um amigo meu que chamavam de 'jacaré', porque ele era todo engomado. Era roupa, era tudo engomado. 
ENTREVISTADOR - Mas por que 'jacaré'?
SR. DARCI - Porque ele era todo engomado, ele ficava duro de tão engomado, que nem um jacaré (...)". 

   A farda de motorneiro é um vestígio marcante da experiência profissional destes senhores. O que deduzimos pela conservação destas vestimentas por muitas décadas depois de encerrado o exercício da profissão. Estar bem alinhado, "bem engomadinho" como diz o Sr. Darci, era um motivo de orgulho, uma forma de demonstrar "capricho" com o trabalho. 
   Sabemos, que todos os objetos que são doados ao nosso setor de memória carregam uma quantidade grande de significados para os seus antigos donos. Algo que não conseguimos alcançar apenas "olhando" o objeto. É sempre necessário uma contextualização, uma conversa anterior sobre os usos e as lembranças trazidas pelo artigo que será doado. Faz parte do nosso trabalho receber estes objetos e estas memórias sempre de uma forma muito respeitosa e com muita gratidão pela confiança que esta sendo depositada em nós. Esperamos que eles sirvam a todas pessoas que visitam o nosso acervo como uma "ponte" para uma melhor compreensão do passado de nossa cidade! 



    

segunda-feira, 26 de março de 2018

Dupla Viagem

     O transporte público está no cotidiano das pessoas. A maioria de nós utiliza ou já utilizou bondes, ônibus ou lotações para a realização de suas atividades diárias. Com 145 anos de existência, a Cia. Carris está presente no dia-dia de porto alegrenses das mais diversas gerações. Esta presença diária, gera muitas histórias e lembranças que são transportadas pelos usuários dos veículos da Carris. Alguns destes usuários têm a sensibilidade necessária para enxergar o cotidiano com olhos de poesia, este é o caso do escritor Charles Kiefer, morador de Porto Alegre e autor do texto "Dupla Viagem". 
   Encontramos o texto citado num trabalho de reorganização de documentos da Cia. Carris (que como nossos amigos podem imaginar, é um trabalho que não termina nunca!). Iremos reescrever o texto e convidamos os nossos amigos a pensarem sobre suas próprias viagens de ônibus e se também "viajam" duas vezes no transporte coletivo: 

"Sempre que ando de ônibus faço duas viagens: uma, em direção ao meu destino geográfico, seja o Mercado Público, o bairro São Geraldo, ou a Azenha; e outra, em direção ao tempo, aos espaços indefinidos da memória e dos sonhos. Sempre que posso, deixo o carro na garagem, por que a minha alma não quer a concentração neurótica do motorista solitário, minha alma tem necessidade de janelas e de ócio, minha alma quer viajar além da Farrapos, da Mauá, da Ipiranga. Por ruas e avenidas congestionadas, elaboro enredos e personagens. Imagino, por exemplo, uma história que principiasse assim: 
'Tudo começou em uma noite qualquer de 1872, ano em que os bondes da Carris começaram a circular. Desde o dia anterior, um denso nevoeiro descerá sobre a cidade.Saí de casa com a sensação de que algo especial, definitivo  me esperava. Na medida que caminhava, sentia o nariz como que chocando-se com uma substância fria e gelatinosa. Em poucos minutos, estava com o cabelo e a barba molhados. Resolvi tomar o bonde. O motorneiro, um velho asmático e corcunda, já me conhecia. Indiferente a sua saudação, sentei-me bem ao fundo, de onde pudesse controlar tudo. Os dedos da minha mão acariciavam a pistola de dois canos no bolso do casaco. Fechei os olhos por algum instante e fiquei a ouvir os estalidos secos das rodas nos trilhos...'
 Não sei como há de prossegui a história, sequer sei quem é este passageiro que atravessa Porto Alegre numa noite qualquer do século passado. O que sei é que se eu quiser continua-lá, terei de andar muito de ônibus. Mas o melhor mesmo seria viajar num daqueles bondes amarelos, vagarosos e tilintantes que há 125 anos encheram Porto Alegre de emoção e espanto!"